Mulheres nunca erram

6 de mai. de 2022

Tempo de leitura: aprox. 13min

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Introdução

Talvez por motivação cômica ou talvez por simples receio de receber represália, há a frase comum de que “a mulher sempre está certa”. Muitos acham que esta frase - falada constantemente sem muita reflexão - melhora a vida das mulheres, pois faz com que os homens sejam mais toleráveis e respeitosos com elas. Porém eu gostaria de mostrar como essa frase, na realidade, é um dos principais motivos de as mulheres nos últimos anos terem atraído para si tanto sofrimento e tanta angústia, e como pode ter contribuído para as mulheres serem as principais vítimas da depressão1 2.

Este texto também se aplica a relações homossexuais, mas usa-se a base heterossexual por ser a mais comum e por conter ambos os sexos.

Por que “a mulher nunca erra”?

Evitar conflito

Seres humanos sempre procuram uma forma de evitar conflitos pois consideram a angústia atrelada a eles não vale a resolução. É como o caso do empregado que, para evitar o conflito com o empregador, aguenta calado a reprimenda desrespeitosa: ele o faz porque com o conflito podem vir mais reprimendas, solicitações maiores de trabalho ou até mesmo a demissão. Mas não apenas em relação de autoridade: um amigo pode evitar dizer para o outro que sua escolha é ruim para evitar uma briga que fará com que ambos se afastem por um tempo.

Considerando que estamos falando de mulheres, pode-se notar a mesma situação dos homens em relação a elas: um homem “sábio” diz que sua esposa “sempre está certa” porque, caso não a agrade, pode perder favores, carícias, elogios e até mesmo o desejo sexual da parceira. Um pai pode achar que todas as escolhas da filha devem ser “aceitas” porque, caso não sejam, ele será considerado um “babaca” por não aceitar a vontade e o desejo da filha. Um amigo que tenta avisar sobre um relacionamento furado pode ser rechaçado como ciumento - principalmente quando demonstra sentimentos pela mulher - e invasivo. E, quando se percebe que tais situações são um pouco difíceis de se resolver e precisam de investimento emocional, muitos homens simplesmente optam por não entrar em conflito e esperar que a situação “se resolva” sozinha.

Não ser chamado de “machista”

Pode parecer bobo, mas considerando que à palavra “machista” foi dada uma conotação negativa na língua portuguesa por feministas – diferentemente de seu conceito original3 que fala sobre os traços propriamentes de alguém do sexo masculino em uma sociedade –, é normal transferir tudo o que é de errado para o macho. Afinal, se feminismo – que tem como raiz a palavra fêmea – é algo bom e deve ser aceito por todos e o machismo – que tem como raiz a palavra macho – é ruim e deve ser repugnado por todos, logo é de se concluir que o que vem de fêmea tende a ser correto enquanto que o que vem de macho tende a ser errado.

Não estou falando de conceitos filosóficos – até porque não vem ao caso falar sobre isso neste pequeno texto deste blog –, mas sim da associação lógica feita através da aproximação das palavras em questão. Para ilustrar, apenas pense na seguinte situação: imagine que constantemente disséssemos que todos devem ser pizzistas e que ser pastelista é algo repugnante e deve ser rechaçado por todos. Mesmo se eu dissesse para você que pizzista é ter bom senso e que pastelista é ser desrespeitoso, a sua associação primária não foi essa. E eu poderia gastar horas e horas dizendo pra você que não tem nada a ver com pizza e pastel, mas a associação primária sempre vai ser com essas duas palavras – que são muito mais identificáveis e identificam muito melhor o que faz parte do nosso cotidiano. Agora imagine isso acontecendo com palavras que não só estão conceituando outra coisa (feminismo como “tratar a mulher como igual ao homem em capacidade intelectual” e machismo como “tratar a mulher como inferior ao homem em capacidade intelecual”) como têm relação direta (feminismo foca em como tratar a fêmea e machismo foca em como o macho se “comporta”).

O homem já é o macho, e ainda ser chamado de “machista” conotando ser algo ruim e intensificando que este algo é ruim por ele ser macho só o incentiva a tentar contornar isso admitindo o extremo oposto do que seria o extremo “machista”.

Perder prestígio social

É comprovado: mulheres têm muito mais habilidades em comunicação – tanto verbal quanto não-verbal – que homens4 5. Esta maior interconexão entre hemisférios cerebrais nas mulheres permite que elas tenham uma melhor percepção de elementos verbais e não-verbais que possam auxiliar na sua substistência – afinal, por ser fisicamente mais frágil, a melhor forma de uma mulher sobreviver é garantir que ninguém venha a agredi-la – e no cuidado com os filhos – saber se o filho está com fome é crucial para dar o alimento sem o qual ele morre.

E eu estaria mentindo se eu dissesse que as mulheres já não sabem disso. Elas usam isso constantemente a seu favor. É comum ver as mulheres se aproximando de crianças e tendo um bom relacionamento com elas, bem como dando grande apoio para o crescimento dessas crianças.

Mas não apenas para o bem. Cansei de ouvir relatos de homens que foram xingados de diversas coisas terríveis por mulheres por terem agido de forma diferente daquela em que elas desejavam. Ou mulheres que não só falam mal de seus maridos para suas amigas, mas também para seus filhos, que muitas vezes crescem vendo o pai como um monstro (talvez ele seja, mas é melhor que as crianças tirem essa conclusão por conta própria do que por manipulação da mãe). Fora as famosas “fofocas”, que muitas vezes são tão destrutivas que tornam a vida de um homem miserável simplesmente porque a mulher falou primeiro. Eu posso dizer isso porque já fui vítima desse tipo de situação.

Lembre-se, agora, que apesar de as mulheres serem mais depressivas que os homens, os homens ainda ganham no número de suicídios6. O sofrimento, para o homem, é muito mais uma questão de vida ou morte do que para a mulher. Quantos homens não ficam solitários, jogados aos bares por terem sido considerados seres desprezíveis por aqueles por quem demonstraram tanto amor e afeto?

É claro, existem homens que cometem erros absurdos e tornam-se abusivos e cruéis com as mulheres. Mas me espanta o número de mulheres que ou se envolvem tanto em relações desse tipo ou simplesmente mentem sobre suas relações. Independentemente de qual das duas situações é, sabe-se que é um problema gigantesco pois gera sofrimento para elas e para os homens.

E como podemos contornar essa situação?

Contornando a situação: admitindo que mulheres também erram

É um passo de humildade reconhecer que, às vezes, você está errado. E a humildade é uma virtude. E, assim como os homens, as mulheres também tiram vantagens de terem virtudes como esta em suas atitudes.

Mas como a gente pode começar a admitir essa realidade? Podemos tentar fazer como os homens sempre fizeram e aplicar à realidade da mulher (não sou mulher, mas pode ter certeza que uma mulher vai revisar este texto e ver se é confirmável).

Mulher erra na escolha de parceiro

Este poderia ser o último tópico desta parte, mas deixo como o primeiro porque é o principal ponto de vacilo das mulheres e a base para muitos outros erros também. Quem não conhece uma mulher que se arrependeu de não ter aceitado uma generosidade de um amigo porque este demonstrou interesse em namorá-la recentemente e ela não estava disponível para ele naquele momento? Ou então a mulher que tinha certeza que se casou com o cara certo por alguns meses e então descobriu que outro homem teria sido muito mais carinhoso com ela do que o atual marido que é abusivo e a trata feito um objeto sexual?

Uma lição que os homens aprendem cedo é que o desejo sexual não pode ser o direcionador de uma decisão importante. Aliás, geralmente o homem é muito mais rápido para perceber uma relação dita “tóxica” justamente porque ele percebe as consequências de ter se envolvido em furada com muito mais intensidade e muito mais cedo.

E quais são os elementos de uma relação tóxica que o homem percebe desde cedo?

  1. Perda de ânimo para fazer coisas que lhe agradam;
  2. Perda ou recusa de oportunidades;
  3. Amigos – homens e mulheres – que oferecem muito mais bem-estar do que a parceira;
  4. Afastamento de amigos – tanto por parte da parceira quanto por parte dele mesmo (ex.: o cara afasta uma amiga porque ela o ajuda com determinadas coisas e está interessada nele mas ele está namorando);
  5. Cobrança constante de afeto por parte da parceira;
  6. Reação extrema diante da frustração – seja dele ou da parceira;
  7. Falta de projeto: o namoro significa “estar com alguém” ao invés de “ter alguém ao lado”;

Existem alguns outros pontos, mas estes são os principais – e os mais identificáveis.

Infelizmente, na juventude, por sempre escutar para “ouvir o coração” ou “escolher o que gosta”, a mulher raramente tem tempo para pensar se a escolha que está fazendo é errada ou não. E isto influencia também na quantidade de mulheres que entram em relações abusivas e acabam se machucando e se iludindo na vida amorosa. Fora a falta de prospecção de futuro: por causa disso essas mulheres são capazes de desperdiçar oportunidades incríveis. Tudo porque “nunca estão erradas”.

É preciso admitir este erro. E não apenas admitir quando começa a incomodar e então depois cair no mesmo erro. É admitir para amadurecer, crescer, seguir caminhando para conquistar o melhor. Assumir que está escolhendo errado o parceiro é assumir que a decisão inicial foi errada, e não que as decisões internas do relacionamento foram ruis.

Mulher erra na escolha de prioridades

Eu poderia estar jogando videogame a esta hora (4h34 da manhã), mas estou escrevendo este texto. Aliás, algumas coisas que eu poderia estar fazendo agora ao invés de escrever: jogar videogame, assistir filme/série, ver atualizações das redes sociais, ver vídeo de speedrun etc. Todas essas coisas podem ser feitas, mas por senso de prioridade eu entendo que é mais importante escrever este texto. Estou perdendo um pouco de liberação de serotonina para poder passar informações importantes que podem, inclusive, salvar a vida de alguém.

Ninguém acha que o cara que vive para jogar videogame terá sucesso na vida. Quer dizer, tem pessoas que ganham a vida jogando videogame, mas até essas pessoas sabem sua lista de prioridades. Eu acompanho alguns speedrunners e alguns devs de jogos, e é interessante como a ideia de simplesmente “ficar jogando” não é o que passa na cabeça deles. Eles criam conteúdo de entretenimento, e eles entendem que oferecer um bom conteúdo é prioridade sobre “passar o dia inteiro jogando joguinho”.

O senso de prioridade é essencial. E você só pode pensar em prioridades quando você pensa que pode estar errado quanto às escolhas de ações a fazer. Um homem que não ouve que deve primeiro finalizar suas responsabilidades para então poder ter o momento de lazer geralmente se torna um homem fracassado na vida.

Aliás, quer um exemplo de homem assim? O cara que abandona a parceira e os filhos. Ao invés de assumir a responsabilidade de ser pai – que é muito mais prioritária do que, por exemplo, ir pra balada ou se envolver com uma mulher atraente – o cara simplesmente fica com a ideia de que a vida é diversão e acaba por estragar a própria vida – pois será marcado como irresponsável –, a vida da parceira – que será abandonada à própria sorte para receber afeto emocional e sexual – e a vida dos filhos – que sofrerão com a ausência do pai.

É vendo esse tipo de situação e até mesmo situações onde o homem acaba sendo vítima que os homens aprendem a ter prioridades. Trabalhar para pagar as contas não anula o sonho de ser músico, mas ser responsável é uma tarefa muito mais satisfatória do que fazer o que gosta de fazer. É claro, se der para fazer os dois, ótimo; mas você dificilmente vai encontrar um homem realizado que priorizou o segundo em detrimento do primeiro.

Para as mulheres fica a mesma ideia: definir prioridades é essencial para ter uma vida satisfatória. Assistir a uma série é legal, mas desenvolver boas amizades será muito mais útil no futuro. É muito bom poder desabafar e falar tudo o que quer, mas ter bom senso dará mais oportunidades na vida do que sair xingando todo mundo na hora que bem entender. Assumir que pode errar é assumir que, de vez em quando, é necessário definir prioridades para as ações que vamos tomar.

Mulher erra na atitude

A namorada fica implicando com o namorado porque ele não a responde na hora que ela quer. O namorado, por sua vez, atende à demanda da namorada, iniciando um ciclo vicioso de demanda estúpida e obediência tola.

Este é um exemplo de atitude errada. Com o tempo, os homens geralmente amadurecem ao ponto de entender que a implicância é sinal de insegurança, e a insegurança é sinal de atitudes erradas. Sim, no início a maioria dos homens aceita a implicância, mas com o tempo começa a entender que é melhor sair de perto do que acatar. Enquanto a prioridade diz respeito ao que se faz por conta própria, a atitude diz respeito ao que se faz em relação aos outros.

Acho que 98% das pessoas que leem este texto responderiam que a atitude correta do cara seria dar um basta, certo? No entanto, quando falamos sobre as mulheres essa implicância só é ruim se ela já não tem mais interesse no parceiro. E olha que interessante a diferença: um homem que é implicado por uma mulher não acha que deve tomar uma atitude porque alguém sugeriu, mas porque existe um elemento pior do que a implicância por trás: a insegurança. Ele percebe que, caso não tome uma atitude, ele vai intensificar a insegurança aumentando o sofrimento da mulher e dele mesmo.

A mulher também erra em atitude. Atitude é sobre conseguir se posicionar para ter resultados melhores, seja nos relacionamentos, na vida financeira, no trabalho etc. Muitas mulheres, por acharem “sempre estarem certas”, acabam por não perceber que perderam tempo dando atenção para um parceiro que não lhes deu atenção. Ou então decidem afastar amigos achando que isto gerará melhores resultados em algumas situações (principalmente namoro), sendo que boas amizades auxiliam em ótimos casamentos.

Aliás, uma dica: se você – homem ou mulher – sente que precisa afastar um amigo ou amiga por causa de namoro, termine o namoro. Ter uma atitude de respeito para aqueles que auxiliam mesmo não recebendo uma gratificação sexual em troca é uma boa forma de filtrar bons relacionamentos. A perda de atitude diante de adversidades é receita para frustração e sofrimento.

Conclusão

Assim como os homens, as mulheres também estão erradas de vez em quando. E assumir isso não é ruim: pelo contrário, é se ajustar para poder amadurecer e crescer na vida. Achar que tudo o que faz é justificável e deve ser aceito pelos outros e querer ter uma vida satisfatória é como querer não sentir dor descendo um tobogã de lâmina de barbear numa piscina de álcool. A mulher xingar um cara por ter conversado com outra mulher depois do término do namoro é tão prejudicial quanto o cara xingar a mulher por ter conversado com outro homem depois do término do namoro.

No final das contas, o sofrimento das pessoas ao redor por causa de erros pode ser muito grande. Porém a mulher que aceita que “está sempre certa” sempre será a que mais vai sofrer por sempre agir de maneira errada e nunca achando que deve mudar para melhorar a vida.

Se for falar por razão cômica, talvez ainda tenha menos problema continuar afirmando que “a mulher sempre está certa”. No entanto, se a gente se importa com as mulheres da nossa geração, é melhor começarmos a dizer a verdade para que um dia, quem sabe, de fato a gente possa concluir que as mulheres quase sempre acertam porque sempre consideram que podem errar.


  1. https://www.dbsalliance.org/education/depression/statistics/  ↩︎

  2. https://ourworldindata.org/mental-health  ↩︎

  3. https://www.oxfordbibliographies.com/view/document/obo-9780199913701/obo-9780199913701-0106.xml  ↩︎

  4. https://www.researchgate.net/publication/274956064_Gender_Differences_in_Personality_and_Social_Behavior  ↩︎

  5. https://xibolete.org/sexo-cerebral/  ↩︎

  6. https://ourworldindata.org/grapher/male-female-ratio-of-suicide-rates?tab=table  ↩︎



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